Preconceito: 5 casos que NÃO devemos esquecer
Cobrar um posicionamento das marcas que consumimos em relação a pautas importantes não é o suficiente, devemos nos manter atentos para que a onda de conscientização não seja apenas uma jogada de marketing. Na matéria de hoje acompanhamos o desdobramento de casos de preconceito envolvendo marcas famosas.

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Tão logo quando um caso de preconceito ou trabalho análogo a escravidão envolvendo uma marca é denunciado, nas nossas redes sociais pipocam comunicados onde as denunciadas se posicionam em relação as acusações, muitas vezes negando os fatos. No meio jornalístico chamamos essa prática de gerenciamento de crise, é quando uma marca se vê em uma situação que pode causar sérios danos para sua imagem e, mais importante, para seu financeiro, tenta contornar a situação da “melhor forma possível”.

Nos últimos anos diversas marcas vem se posicionando e construindo uma imagem de pluralidade que representam a diversidade do nosso povo, mas esse tipo de atitude muitas vezes está pautada apenas para garantir maior visibilidade e aumento no faturamento. Em um dos casos mais recentes, a Loja Três, uma marca de roupas carioca, foi denunciada por diversos funcionários por gordofobia, assedio moral, racismo e homofobia, crimes esses praticados pela proprietária da marca Guta Bion e seus filhos Fernanda Bion e o economista Francisco Bion. Em entrevista ao Universa, do Uol, Ruth de Oliveira, caixa de uma das lojas da marca conta que “Ela [Guta Bion] achava que o negro é necessariamente favelado e dizia isso de forma muito pejorativa. Ofender uma estoquista pelo nível social ou falar mal de ‘pessoas de cor’, como se referiam a pessoas negras, me afeta diretamente”.

A marca que era conhecida por pregar a diversidade e fazer parte do movimento “Quem Faz Suas Roupas”, do Fashion Revolution, se pronunciou dizendo desconhecer as acusações de preconceito. Não há registros de inquéritos abertos no Ministério Publico do Trabalho do Rio de Janeiro para averiguação dos fatos contra a Trois E-commerce Roupas EIRELI, dona da marca Três.

A gigante varejista da moda, Hennes et Mauritz (H&M), cancelou uma foto da sua campanha publicitaria de 2018 por conta do teor racista. Na propaganda havia uma criança, um menino negro, que usava um moletom com capuz que dizia: “Coolest monkey in the jungle” na tradução para o português ela quer dizer: “macaco mais legal da selva”.

Casos de preconceito. Menino branco veste "sobrevivente especialista", enquanto o menino negro tem estampado em sua roupa a frase "o macaco mais legal da selva"
Menino branco veste “sobrevivente especialista”, enquanto o menino negro tem estampado em sua roupa a frase “o macaco mais legal da selva”

Em nota de esclarecimento da H&M para o jornal CNBC a porta voz da marca declarou, “Pedimos sinceras desculpas por ofender as pessoas com esta imagem de uma blusa com capuz impressa. Acreditamos na diversidade e inclusão em tudo o que fazemos e revisaremos todas as nossas políticas internas para evitar problemas futuros”. Apesar da nota e da retirada da imagem publicitaria dos canais da empresa, a H&M ainda manteve o moletom a venda em suas lojas.

Uma das maiores marcas do mercado de cosméticos, Dove, teve uma campanha publicitária de 2017 boicotada, devido ao vídeo da propaganda apresentar práticas racistas. No vídeo exibido em redes sociais como o Facebook da marca, podemos observar que o vídeo começa com uma mulher negra. Em seguida ela tira sua blusa, mas ao tirar ela se transforma em uma mulher branca. Que na época chocou muitas pessoas devido a ideia de que “agora ela esta ‘limpa’ por usar o sabonete Dove”. 

Propaganda foi retirada do ar após repercussão negativa

Não é a primeira vez que a empresa se envolve em polemicas racistas. Em 2015 um produto da Dove possuía uma etiqueta que dizia o seguinte: “Este produto pode ser usado por peles normais e negras”. Em nota de esclarecimento em sua rede social ‘twitter’ a marca disse, “Uma imagem (vídeo) que publicamos recentemente no Facebook errou ao representar mulheres negras de forma desrespeitosa. Lamentamos profundamente a ofensa que causou [o anúncio]” 

Marca de jeanswear do designer Carlos Miele, a M.Officer, é conhecida por  ter em seus canais de publicidade e comunicação pouca representatividade e diversidade. Além disso, esteve ligada duas vezes a escândalos envolvendo trabalho escravo, a última sendo em 2014, quando a Receita Federal resgatou seis pessoas que trabalharam em condições degradantes em uma confecção em São Paulo que prestava serviços para a grife. Os trabalhadores resgatados eram imigrantes bolivianos e trabalhavam apertados em uma sala sem ventilação com jornadas exaustivas, recebendo cerca de R$ 3 a R$ 6 por peça produzida, segundo o Ministério Público do Trabalho de São Paulo.

A marca não assumiu a responsabilidade pelas denuncias de trabalho análogo a escravidão, assim como no primeiro caso de denúncia ocorrido em 2013. Contudo, a Justiça do Trabalho condenou a M5, marca detentora da M.Officer, em segunda instância pela 4ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo por trabalho escravo, em 2017, condenando-a pagar o valor de R$4 milhões de indenização por danos morais coletivos e R$2 milhões por dumping social, que é quando uma empresa se beneficia da precarização do trabalho alheio. 

A blogueira soteropolitana, Nathielly Colcci, fez uma denúncia em sua conta do Instagram, sobre o racismo e homofobia que sofreu ao tentar fazer uma parceria com a loja Perla Modas Infantis. Nathy e a esposa entraram em contato com a marca infantil para fazer uma parceria por conta de estarem prestes a serem mães. Acreditavam que seria muito bom tanto para elas quanto para a loja realizar esta parceria. Entretanto a resposta que elas receberam não foi apenas racista, mas também homofóbica, “Não achei seu perfil agradável. Você também é lésbicas e negra. Não passa uma boa imagem”, disse o representante da marca via mensagem por rede social. Nathielly printou a conversa com a marca e publicou em seu Instagram, a blogueira comenta que nunca achou que isto iria acontecer com ela e que ninguém está imune destes atos. A loja não se pronunciou sobre o assunto e até teve o perfil do Instagram derrubado. 

Está matéria é uma escrita colaborativa entre Liz Vilas Boas e Talita Dias

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